Joaquim da CruzJoaquim da Cruz foi das pessoas mais importantes da Vila de Pampilhosa na primeira metade de Sec. XX e dos que mais contribuíram para o desenvolvimento e progresso da terra. Natural de Praia do Ribatejo, Conselho de Vila Nova da Barquinha, onde nasceu a 17-9-1884. Filho de Thomaz da Cruz e de D. Rosa Maria. No fim do sec. XIX e princípios do Sec.XX havia na praia do Ribatejo dois madeireiros e agricultores com ligações familiares: Thomaz da Cruz e Manuel Vieira da Cruz, com a particularidade de ambos virem a ter fábricas de serração na Pampilhosa. A firma Thomaz da Cruz & Filhos tinha a sua sede na Praia do Ribatejo, com fábrica de serração a vapor. Abriu sucursais em Caxarias (Ourém), Carriço (Pombal) e Pampilhosa (Mealhada). Thomaz da Cruz foi pai de quatro filhos: Francisco (que chegou a Deputado pelo Círculo de Torres Novas), Joaquim, José e António. Com a entrada em funcionamento, em 1882, da linha de caminho de ferro da Beira Alta, a Pampilhosa começou a transformar-se por completo. A actual parte baixa de Pampilhosa, onde em 1870 não havia qualquer prédio, foi ocupada por algumas fábricas, armazéns e residências em poucos anos. Só cerâmicas chegou a haver quatro na zona entre os sítios da Ribeira das Cebolas, Paradas e Entre Silveiras que, com o caminho-de-ferro da Beira Alta passou a ser referida por Entroncamento de Pampilhosa.

A primeira fábrica de serração de madeiras a ser instalada no Entroncamento ( de Pampilhosa) foi de Thomaz da Cruz & Filhos, junto à via férrea e um pouco a sul da estação, isto no ano de 1905. Ficaram à frente da dita fábrica os irmãos Joaquim e Francisco da Cruz que, desenvolvendo grande actividade, deram grande nomeada à Firma, exportando madeira trabalhada para diversos pontos do País através do caminho de ferro. Foi o caminho de ferro e a consequente instalação de indústrias de barro e de madeira que muito contribuiu para a criação de um pólo industrial e populacional da menos populosa Freguesia do Conselho de Mealhada que, em 1880, somava pouco mais de 650 moradores e, em 1910, já perto de 1500.

A esse surto de desenvolvimento sempre esteve ligado o nome de Joaquim da Cruz, com o seu dinamismo e a sua simpatia, levando-o a ser considerado e respeitado na terra. De facto, Joaquim da Cruz, republicano dos quatro costados, democrata e anti-clerical, muito cedo se embrenhou na politica local, ainda durante o regime monárquico, entusiasmando-se pelo desenvolvimento de uma comunidade que crescia e passou a considerar como sua. Nos primeiros tempos, Joaquim da Cruz ficou instalado na Pensão Rodrigues, um dos primeiros prédios a ser edificado junto à estação dos Caminhos de Ferro.

Nos últimos anos do séc. XIX e primeiros do séc. XX realizaram-se na Pampilhosa Alta alguns espectáculos de Teatro por amadores e alguns dos novos Habitantes do Entroncamento, nas cocheiras das carruagens do Caminho de Ferro. O povo de Pampilhosa frequentava esses saraus entusiasticamente. Com o crescimento e o progresso da povoação, justificava-se a existência de um local adequado para espectáculos teatrais. O ferroviário Lúcio de Oliveira e Silva sugeriu a construção de um edifício para Teatro. Na Tertúlia que então tinha lugar nas noites do Restaurante da Estação, o assunto foi apreciado e Joaquim da Cruz, Albano Christina e Abel Godinho logo apoiaram a ideia. Criou-se uma comissão para se tentar fundar uma Sociedade Recreativa e Cultural e para a construção de um teatro. Aos três entusiastas apontados juntaram-se Joaquim e João Teixeira Lopes, José Ferreira Pires, Dr. João Abrantes, Joaquim e José de Melo, Feliciano Rocha, Bartholomeu Dêlho e Paul Bergamim, que cedeu à Comissão Organizadora do futuro Grémio de Instrução e Recreio uma, leira de terra no sítio da Ribeira, para aí ser edificado o Teatro.

A construção do Teatro prolongou-se de 1906 até 1912, onde Joaquim da Cruz teve grande preponderância. No aspecto cultural, importantíssima para a Pampilhosa pois, na parte sul do Distrito de Aveiro, não havia qualquer casa de espectáculos. Joaquim da Cruz foi o primeiro Presidente da Direcção, eleita em 1913. Sempre dedicou grande interesse pelo teatro, pela cultura. Entretanto em 1909 fundou-se na Pampilhosa a Loja Maçónica José Falcão, número 306 do Rito Escocês, de que Joaquim da Cruz fez parte, bem como Abel Godinho, extinta em 1913. Após a implantação da República, Joaquim da Cruz foi eleito o primeiro Presidente da Câmara Municipal de Mealhada, dedicando particular interesse à Pampilhosa, terra adoptiva que considerava como sua.

Quando surgiu a ideia da construção de uma escola primária no Entroncamento, logo os dois irmãos (Francisco e Joaquim) aderiram à ideia, tendo a Firma de que faziam parte oferecido o terreno. Joaquim da Cruz passou a ser dos cidadãos mais populares e admirados não só na Pampilhosa, como no Conselho. Grande benemérito, industrial activo, dos vultos mais actuantes do Partido da União Republicana no Município, sempre bem-humorado, de espírito e corpo sãos, Joaquim da Cruz era um bom cavaqueador, despretencioso e de sorriso comunicativo. Seus amigos diziam que, quando calado, atraia e a falar, encantava. Em 1912 propôs a constituição de um Sindicato Agrícola, para defesa dos camponeses do Conselho.

Um ano antes, sendo Administrador do Conselho, sugeriu a criação de uma Feira na Pampilhosa, na zona das Valadas que passou a ser referida por Feira. Fez parte da Comissão para a construção de um fontanário artístico que viria a ser inaugurado em 1916 e ficou a ser conhecido por Fonte do Garoto, escultura em bronze da autoria do Maestro António Teixeira Lopes.

Em 1912, sendo presidente da Câmara, conjuntamente com o Major António Pinho, Dr. Lebre, João Melo Mota e Augusto Brandão, dirigiu uma petição à Câmara de Deputados, no sentido do Conselho de Mealhada voltar para o Distrito de Coimbra, onde pertencera ate 31 de Dezembro de 1853. Em 1913 Joaquim da Cruz fundou a Tuna Recreativa de Pampilhosa.

Entre 1917 e 1919 voltou a ser presidente da Câmara Municipal de Mealhada e fundou o Jornal Factos. Admirador de António José de Almeida e Norton de Matos, prosseguia sempre os seus ideais, procurando consensos entre o povo. Em 1920 teve a ideia de, conjuntamente com outros industriais da Pampilhosa, criar uma espécie de Caixa Mutual, para a que também contribuíram os operários com um pequeno desconto nos seus salários. Como os operários não concordassem, a ideia gorou-se.

Porém embora com alterações, a ideia voltou a ser tratada por alguns industriais, acabando por ser criada a Associação de Socorros Mútuos 7 de Agosto, em 1921. Ainda apoiou Francisco Mourão na iniciativa da criação da Casa da Sopa dos Pobres.

Por essa altura, o filantropo industrial trouxe para a Pampilhosa o segundo automóvel que houvera na terra, um vistoso Turcat-Méry, que, mais tarde, seria o primeiro pronto-socorro dos Bombeiros Voluntários. O primeiro automóvel que apareceu na Pampilhosa, foi um Chevrolet, propriedade do senhor Semedo, que residia perto da capela do Senhor do Lombo. A oito de Dezembro de 1923, Joaquim da Cruz casou na Figueira da Foz com D. Maria Rita dos Santos Carvalho, filha de Manuel José de Carvalho e irmã dos Drs. Joaquim e Júlio José de Carvalho.

No ano de 1924 ajudou a criação do Pátria Foot-Ball Club e deu apoio a Adriano Teixeira Lopes e Joaquim Pires na formação de Empresa Cinematográfica Pampilhosense, da qual inicialmente foi sócio. Por essa altura, Joaquim de Cruz defendia tornar-se imperioso construir um Bairro Operário e aprovar um plano geral de urbanização, dado o seu crescimento populacional, industrial e comercial, melhorando os arruamentos e o asseio. Chamou atenção para a falta de critérios nas edificações, necessidade de abertura de novas ruas e construção de uma Passerelle sobre as linhas para acesso à Estação. Também apelou aos proprietários para construírem edifícios com bom gosto, de forma a que, futuramente, a Pampilhosa fosse mais atraente.

Vila RosaEle mesmo mandou construir um belo e grandioso edifício, junto à fábrica de serração, edifício esse a que deu o nome de sua mãe Vila Rosa. Ainda hoje um belo Chalet, conquanto semi-arruinado, por longo abandono. Á sua custa, mandou plantar várias árvores nas orlas das estradas da Freguesia de Pampilhosa. Em 1923, Joaquim da Cruz e Albano Christina convenceram Joaquim José de Melo a autorizar graciosamente a canalização de água de abundante nascente junto ao pinhal de Gândara, até perto da zona habitacional. Construiu-se então um aqueduto com mais de trinta arcos e essa fonte passou a ser a Fonte do Melo, inaugurada em 1925.

Tudo isto demonstrava o valor e o carinho que Joaquim da Cruz nutria pela terra que o adoptou. Quando, em, 1926, se pensou em fundar uma Corporação de Bombeiros, Joaquim da Cruz logo deu o seu incondicional apoio e, com Adriano Teixeira Lopes, encabeçou a Comissão Organizadora. Na primeira eleição, focou a presidir à Assembleia-geral. Depois, por vários anos, Presidente da Direcção e Primeiro Comandante, tendo colocado à disposição dos Bombeiros, graciosamente, um seu armazém que serviu de Quartel durante quinze anos.

Em 1931 vendeu ao B. V. P. o seu automóvel Turcat-Méry pelo preço simbólico de 3.000$00. Passou a ser o Pronto-Socorro nº1. Durante a Guerra Civil Espanhola e II Guerra Mundial a industria da Pampilhosa, como aliás de quase todo o país, atravessou um período de grande crise, a que se associou, na Pampilhosa, a diminuição do movimento de mercadorias no Caminho-de-ferro, em virtude do advento do transporte rodoviário.

No período que se seguia à Guerra Mundial, principalmente no início dos anos cinquenta, a crise acentuou-se e as fabricas a pouco e pouco, começaram, a fechar. No período que se seguia à Guerra Mundial, principalmente no início dos anos cinquenta, a crise acentuou-se e as fabricas a pouco e pouco, começaram, a fechar. Vários ferroviários emigraram para Africa, outros vão para França, a população pampilhosense reduz-se, continuando, no entanto, a ser a mais elevada nas Freguesias do Conselho de Mealhada. Joaquim da Cruz que, a pouco e pouco, se vinha afastando da vida activa, social e económica, encerra a fábrica de serração. Acaba por a vender, conjuntamente com a Vila Rosa, à Sociedade de Adubos Ceres.

Pelo referido se pode concluir que Joaquim da Cruz, ribatejano que se tornou bairradino, foi figura destacada de Pampilhosa. Joaquim da Cruz faleceu na Pampilhosa no dia 3 de Agosto de 1975, ficando sepultado, na sua terra natal, Praia do Ribatejo.